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#10: A PARTIDA (Osman Lins, 1975)

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  H oje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante.   Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir. Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa. Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e...

#9: O CINTURÃO (Graciliano Ramos,1945)

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As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural. Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, girando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal — e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturã...

#8: SEM ENFEITE NENHUM (Adélia Prado, 1979)

A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?  Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.  Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom', danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.  Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era ist...

#7: UMA FLOR AMARELA (Julio Cortázar, 1956)

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P arece brincadeira, mas somos imortais.  Sei disso pela negativa, sei porque conheço o único mortal. Ele me contou sua história num bistrô da rue Cambronne, tão bêbado que não tinha o menor problema em dizer a verdade embora o dono e os velhos fregueses do balcão rissem até soltar vinho pelos olhos. Ele deve ter visto algum interesse pintado na minha cara, porque não desgrudou mais de mim e acabamos nos dando o luxo de uma mesa num canto onde se podia beber e conversar em paz. Contou que era aposentado da prefeitura e que sua mulher tinha ido morar com os pais por uma temporada, um jeito como outro qualquer de admitir que o deixara. Era um sujeito nada velho e nada ignorante, com um rosto ressecado e olhos tuberculosos. Realmente bebia para esquecer, coisa que proclamava a partir do quinto copo de vinho tinto. Não senti nele o cheiro que é uma assinatura de Paris mas que aparentemente só nós, estrangeiros, sentimos. E tinha unhas bem-cuidadas, e nada de caspa. Contou que um dia ti...

#6: EROS E CIVILIZAÇÃO (Modesto Carone)

Era tarde quando Marta abriu as pernas. Havia pouca luz no quarto, mas isso não impedia que as lâminas dos pequenos lábios rasgassem a obscuridade com reflexos intermitentes. Diante dos meus olhos as chispas moviam-se silenciosas, tecendo no ar uma trama de traços metálicos. Na espiral que ia da cama ao teto, os fios armavam afinal uma estrela pontuda. Com a face direita voltada para a projeção noturna, coroamento do espetáculo, Marta chegava à serenidade do dever cumprido. O estrailho é que apesar de tudo ela ainda chorasse. Para atenuar uma dor que parecia sincera, peguei a banana da fruteira e a ofereci à voracidade das lâminas. Sua comoção não se fez esperar: em poucos segundos nada mais restava na palma da minha mão. As lágrimas No entanto ainda vincavam a planície gelada. Foi então me ocorreu aparar as unhas no inquieto mecanismo. E verdade que nesse gesto havia mais interesse que solidariedade, pois niilito tempo eu não as cortava decentemente. Devo admitir que o serviço foi per...

#5: Vereda Tropical (Pedro Maia Soares, 1976)

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Amo melancias. Gosto de possuí-las ao fim da tarde, quando vem chegan do a penumbra, de pé, sobre a mesa da cozinha, no sofá onde é mais aconchegante, ou deitado no tapete da sala onde podemos rolar de um lado para o outro. Prefiro as longas, escuras, rajadas, mas são difíceis de encontrar. Por isso, quase sempre tenho uma das redondinhas comigo. Faço um orifício pouco profundo, o suficiente apenas para remover a casca. Depois penetro-as, sentindo a carne vermelha se desmanchar, deixando escorrer um líquido fresco e doce. Com as mãos seguro o outro lado, acariciando o lugar do cabo. Bem lavadas e lustradas, elas são macias ao tato, as mãos escorregam pelo arredondado da forma. E eu pressiono mais para dentro, sinto as sementes me envolvendo e ouço o ruído da carne que se esfacela, Com as longas é possível possuí-las dos dois lados, sempre o mesmo resultado. Não encontro o primeiro furo, é preciso fazer tudo de novo, o prazer é total. Com as pequenas, em compensação, ao penetrar do lado...

#4: OFÉLIA, MEU CACHIMBO E O MAR (Murilo Rubião, 1947)

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G osto de conversar com Ofélia na varanda após o jantar,  cachimbo entre os dentes e o oceano, enegrecido pela noite, estendendo-se à nossa frente. Conto-lhe episódios da crônica de minha família ou do mar, esquecendo-me frequentemente de que ela só se interessa por histórias de caçadas. Quando me lembro disso, lamento a condição de Ofélia, descendente de nobre estirpe de caçadores. Mas o que posso fazer, além de lastimar? Não sinto a menor atração por esse esporte e entre os meus antepassados não sei de algum que tenha levantado a arma para exterminar animais que não fossem do gênero humano.Se noto que a conversa vai morrendo por culpa de Ofélia, que cerrou os olhos para melhor sonhar com selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que vêm do mar. Ouço as sirenes que cortam a noite como gemidos de homens que se perderam em águas distantes. Talvez seja mera impressão minha. Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem simboliz...