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#18: A MULHER DO VIZINHO (Fernando Sabino, 1988)

   Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.            O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.            O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:            — O senhor pensa qu...

#16:O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS (Mia Couto, 2003)

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  De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei? (Verso do menino que fazia versos ) — Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. — Há antecedentes na família? — Desculpe doutor? O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros ...

#14: AÍ PELAS TRÊS DA TARDE (Raduan Nassar, 1972)

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 Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis esventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você  milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e  perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê  um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida) e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se tala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo ...

#11: E TINHA A CABEÇA CHEIA DELES (Marina Colasanti, 1986)

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  T odos os dias, ao primeiro sol da manhã, mãe e filha sentavam-se na soleira da porta. E deitada a cabeça da filha no colo da mãe, começava esta a catar-lhe piolhos. Os dedos ágeis conheciam sua tarefa. Como se vissem, patrulhavam a cabeleira separando mechas, esquadrinhando entre os fios, expondo o claro azulado do couro. E na alternância ritmada de suas pontas macias, procuravam os minúsculos inimigos, levemente arranhando com as unhas, em carícia de cafuné. Com o rosto metido no escuro pano da saia da mãe, vertidos os cabelos sobre a testa, a filha deixava-se ficar enlanguescida, enquanto a massagem tamborilada daqueles dedos parecia penetrar-lhe a cabeça, e o calor crescente da manhã lhe entrefechava os olhos. Foi talvez devido à modorra que a invadia, entrega prazerosa de quem se submete a outros dedos, que nada percebeu naquela manhã – a não ser, talvez, uma leve pontada – quando a mãe, devassando gulosa o secreto reduto da nuca, segurou seu achado entre polegar e indicador...

#10: A PARTIDA (Osman Lins, 1975)

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  H oje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante.   Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir. Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa. Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e...

#7: UMA FLOR AMARELA (Julio Cortázar, 1956)

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P arece brincadeira, mas somos imortais.  Sei disso pela negativa, sei porque conheço o único mortal. Ele me contou sua história num bistrô da rue Cambronne, tão bêbado que não tinha o menor problema em dizer a verdade embora o dono e os velhos fregueses do balcão rissem até soltar vinho pelos olhos. Ele deve ter visto algum interesse pintado na minha cara, porque não desgrudou mais de mim e acabamos nos dando o luxo de uma mesa num canto onde se podia beber e conversar em paz. Contou que era aposentado da prefeitura e que sua mulher tinha ido morar com os pais por uma temporada, um jeito como outro qualquer de admitir que o deixara. Era um sujeito nada velho e nada ignorante, com um rosto ressecado e olhos tuberculosos. Realmente bebia para esquecer, coisa que proclamava a partir do quinto copo de vinho tinto. Não senti nele o cheiro que é uma assinatura de Paris mas que aparentemente só nós, estrangeiros, sentimos. E tinha unhas bem-cuidadas, e nada de caspa. Contou que um dia ti...