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#15: QUARTO MINGUANTE (Andrea Del Fuego, 2007)

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Salão encerado, suor entre os seios. Eu queria apanhar. Apanhar até a pele esfolar, provoquei. Joguei a sandália num grupo que dançava em frente, atingiu justo ele. Vestido de pirata, eu furaria seus olhos para que cego ele me odiasse. Acordei, levantei, lavei o rosto. No palco evoluía uma banda antiga, encantei o senhor de chapéu vermelho, ele me quis. Beijei o velho na coxia, devagarinho. Ele me capinava o rosto com a língua áspera, a saliva umedecia a saboneteira. Acordei, bebi da água que deixo ao lado da cama. Passei para uma sala oval com portas que davam para outras salas ovais, fui penetrando a ambiência. Alguém me chama, um bispo no quarto escuro, sentado no chão. Entrei. Fui rasgada com talheres de ferro, a carne se soltou dos ossos com nenhum esforço, ele me desfiava pelos punhos. Roeu a coxinha de minha mão e ofereceu o resto ao Saturno numa pia batismal. Acordei. O homem vestido de pirata me tirou para dançar. Não queria mais furar seu olho, desse ele um vacilo e eu o mont...

#8: SEM ENFEITE NENHUM (Adélia Prado, 1979)

A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?  Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.  Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom', danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.  Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era ist...

Contistas Brasileiras para ler todo dia

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  O post é sobre contistas brasileiras, mas como o mote foi o 8 de março, Dia da Mulher, vou começar falando de Virginia Woolf escritora inglesa que causou muito na cena literária londrina, e do mundo, nas primeiras décadas do século passado. Em 1928, fez uma série de palestras na Universidade de Cambridge, que depois virou o livro “Um teto todo seu”, clássico da literatura feminista, que fala sobre as condições da mulher na sociedade e sua produção literária. Passado tanto tempo ainda são incomodamente atuais. Uma frase sua ficou célebre: “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu”.  E você quando você pensa em autoras femininas brasileiras pensa em quem? Qual a escritora brasileira que primeiro vem à sua cabeça? Clarice? Lygia? Raquel? Cecília? Conceição? Consegue rapidamente elencar dez das suas escritoras nacionais preferidas? É mais fácil quando se fala de autores homens, né? Nessa nossa sociedade machista, a literatura não foge à regra. Então como gancho do Di...