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#7: UMA FLOR AMARELA (Julio Cortázar, 1956)

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P arece brincadeira, mas somos imortais.  Sei disso pela negativa, sei porque conheço o único mortal. Ele me contou sua história num bistrô da rue Cambronne, tão bêbado que não tinha o menor problema em dizer a verdade embora o dono e os velhos fregueses do balcão rissem até soltar vinho pelos olhos. Ele deve ter visto algum interesse pintado na minha cara, porque não desgrudou mais de mim e acabamos nos dando o luxo de uma mesa num canto onde se podia beber e conversar em paz. Contou que era aposentado da prefeitura e que sua mulher tinha ido morar com os pais por uma temporada, um jeito como outro qualquer de admitir que o deixara. Era um sujeito nada velho e nada ignorante, com um rosto ressecado e olhos tuberculosos. Realmente bebia para esquecer, coisa que proclamava a partir do quinto copo de vinho tinto. Não senti nele o cheiro que é uma assinatura de Paris mas que aparentemente só nós, estrangeiros, sentimos. E tinha unhas bem-cuidadas, e nada de caspa. Contou que um dia ti...

#4: OFÉLIA, MEU CACHIMBO E O MAR (Murilo Rubião, 1947)

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G osto de conversar com Ofélia na varanda após o jantar,  cachimbo entre os dentes e o oceano, enegrecido pela noite, estendendo-se à nossa frente. Conto-lhe episódios da crônica de minha família ou do mar, esquecendo-me frequentemente de que ela só se interessa por histórias de caçadas. Quando me lembro disso, lamento a condição de Ofélia, descendente de nobre estirpe de caçadores. Mas o que posso fazer, além de lastimar? Não sinto a menor atração por esse esporte e entre os meus antepassados não sei de algum que tenha levantado a arma para exterminar animais que não fossem do gênero humano.Se noto que a conversa vai morrendo por culpa de Ofélia, que cerrou os olhos para melhor sonhar com selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que vêm do mar. Ouço as sirenes que cortam a noite como gemidos de homens que se perderam em águas distantes. Talvez seja mera impressão minha. Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem simboliz...