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#15: QUARTO MINGUANTE (Andrea Del Fuego, 2007)

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Salão encerado, suor entre os seios. Eu queria apanhar. Apanhar até a pele esfolar, provoquei. Joguei a sandália num grupo que dançava em frente, atingiu justo ele. Vestido de pirata, eu furaria seus olhos para que cego ele me odiasse. Acordei, levantei, lavei o rosto. No palco evoluía uma banda antiga, encantei o senhor de chapéu vermelho, ele me quis. Beijei o velho na coxia, devagarinho. Ele me capinava o rosto com a língua áspera, a saliva umedecia a saboneteira. Acordei, bebi da água que deixo ao lado da cama. Passei para uma sala oval com portas que davam para outras salas ovais, fui penetrando a ambiência. Alguém me chama, um bispo no quarto escuro, sentado no chão. Entrei. Fui rasgada com talheres de ferro, a carne se soltou dos ossos com nenhum esforço, ele me desfiava pelos punhos. Roeu a coxinha de minha mão e ofereceu o resto ao Saturno numa pia batismal. Acordei. O homem vestido de pirata me tirou para dançar. Não queria mais furar seu olho, desse ele um vacilo e eu o mont...

#6: EROS E CIVILIZAÇÃO (Modesto Carone)

Era tarde quando Marta abriu as pernas. Havia pouca luz no quarto, mas isso não impedia que as lâminas dos pequenos lábios rasgassem a obscuridade com reflexos intermitentes. Diante dos meus olhos as chispas moviam-se silenciosas, tecendo no ar uma trama de traços metálicos. Na espiral que ia da cama ao teto, os fios armavam afinal uma estrela pontuda. Com a face direita voltada para a projeção noturna, coroamento do espetáculo, Marta chegava à serenidade do dever cumprido. O estrailho é que apesar de tudo ela ainda chorasse. Para atenuar uma dor que parecia sincera, peguei a banana da fruteira e a ofereci à voracidade das lâminas. Sua comoção não se fez esperar: em poucos segundos nada mais restava na palma da minha mão. As lágrimas No entanto ainda vincavam a planície gelada. Foi então me ocorreu aparar as unhas no inquieto mecanismo. E verdade que nesse gesto havia mais interesse que solidariedade, pois niilito tempo eu não as cortava decentemente. Devo admitir que o serviço foi per...

UM CONTO POR DIA: #1 O homem-mulher (Sérgio Sant`Anna, 2014)

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  O nome dele era Adamastor Magalhães, mas ele preferia ser chamado de Fred Wilson, que era o nome que usava no grupo amador de teatro em que era ator, em Belém do Pará, cidade onde nascera e vivia. Para simplificar, as pessoas passaram a chamá-lo de Fred. Pode-se dizer que tudo começou quando ele fez o papel de Claire, em As criadas, de Jean Genet, em que, naturalmente, usava uma roupa feminina. E foi com o figurino de Claire que, num Carnaval, saiu num bloco de sujos. Mas é de supor que, morando numa família com mais duas irmãs, tenha experimentado vestidos escondido.  E também é provável que, estando na adolescência, tenha sentido um verdadeiro frisson com o ventinho nas pernas e uma calcinha envolvendo seu pau, quando experimentou uma roupa da irmã pela primeira vez. Ele sentiu esse corpo feminino em si ou contra o seu. Teve de ajudar-se com a mão para gozar, mas a marca era indelével: homem e mulher num corpo só, que sente prazer.  Talvez, se Adamastor tivesse o pai...