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#16:O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS (Mia Couto, 2003)

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  De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei? (Verso do menino que fazia versos ) — Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. — Há antecedentes na família? — Desculpe doutor? O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros ...

#14: AÍ PELAS TRÊS DA TARDE (Raduan Nassar, 1972)

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 Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis esventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você  milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e  perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê  um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida) e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se tala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo ...

#4: OFÉLIA, MEU CACHIMBO E O MAR (Murilo Rubião, 1947)

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G osto de conversar com Ofélia na varanda após o jantar,  cachimbo entre os dentes e o oceano, enegrecido pela noite, estendendo-se à nossa frente. Conto-lhe episódios da crônica de minha família ou do mar, esquecendo-me frequentemente de que ela só se interessa por histórias de caçadas. Quando me lembro disso, lamento a condição de Ofélia, descendente de nobre estirpe de caçadores. Mas o que posso fazer, além de lastimar? Não sinto a menor atração por esse esporte e entre os meus antepassados não sei de algum que tenha levantado a arma para exterminar animais que não fossem do gênero humano.Se noto que a conversa vai morrendo por culpa de Ofélia, que cerrou os olhos para melhor sonhar com selvas e tiros, calo-me por instantes e me ponho a ouvir vozes soturnas que vêm do mar. Ouço as sirenes que cortam a noite como gemidos de homens que se perderam em águas distantes. Talvez seja mera impressão minha. Os sons emitidos pelas naves, procurando ou se afastando do porto, podem simboliz...

#3: O MOÇO DO SAXOFONE - (Lygia Fagundes Telles, 1970)

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E u era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando.  Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone. N...

Contistas Brasileiras para ler todo dia

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  O post é sobre contistas brasileiras, mas como o mote foi o 8 de março, Dia da Mulher, vou começar falando de Virginia Woolf escritora inglesa que causou muito na cena literária londrina, e do mundo, nas primeiras décadas do século passado. Em 1928, fez uma série de palestras na Universidade de Cambridge, que depois virou o livro “Um teto todo seu”, clássico da literatura feminista, que fala sobre as condições da mulher na sociedade e sua produção literária. Passado tanto tempo ainda são incomodamente atuais. Uma frase sua ficou célebre: “Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu”.  E você quando você pensa em autoras femininas brasileiras pensa em quem? Qual a escritora brasileira que primeiro vem à sua cabeça? Clarice? Lygia? Raquel? Cecília? Conceição? Consegue rapidamente elencar dez das suas escritoras nacionais preferidas? É mais fácil quando se fala de autores homens, né? Nessa nossa sociedade machista, a literatura não foge à regra. Então como gancho do Di...