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#19: O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO (João do Rio, 1921)

No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social. O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalista...

#18: A MULHER DO VIZINHO (Fernando Sabino, 1988)

   Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.            O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.            O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:            — O senhor pensa qu...

#16:O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS (Mia Couto, 2003)

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  De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei? (Verso do menino que fazia versos ) — Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. — Há antecedentes na família? — Desculpe doutor? O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros ...

#15: QUARTO MINGUANTE (Andrea Del Fuego, 2007)

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Salão encerado, suor entre os seios. Eu queria apanhar. Apanhar até a pele esfolar, provoquei. Joguei a sandália num grupo que dançava em frente, atingiu justo ele. Vestido de pirata, eu furaria seus olhos para que cego ele me odiasse. Acordei, levantei, lavei o rosto. No palco evoluía uma banda antiga, encantei o senhor de chapéu vermelho, ele me quis. Beijei o velho na coxia, devagarinho. Ele me capinava o rosto com a língua áspera, a saliva umedecia a saboneteira. Acordei, bebi da água que deixo ao lado da cama. Passei para uma sala oval com portas que davam para outras salas ovais, fui penetrando a ambiência. Alguém me chama, um bispo no quarto escuro, sentado no chão. Entrei. Fui rasgada com talheres de ferro, a carne se soltou dos ossos com nenhum esforço, ele me desfiava pelos punhos. Roeu a coxinha de minha mão e ofereceu o resto ao Saturno numa pia batismal. Acordei. O homem vestido de pirata me tirou para dançar. Não queria mais furar seu olho, desse ele um vacilo e eu o mont...

#13: 15 Cenas de descobrimento de Brasis (Fernando Bonassi, 1999)

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Cena 1 HISTÓRIA DAS IDÉIAS   Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa. Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito. Então surgiram os números racionais e a História, organizando os eventos sem sentido. A fome desde sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança.   Cena 2 TURISMO ECOLÓGICO   Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar a Ave Maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negócio, não fosse o fato das índias começarem a deitar-se com os hóspedes. Nada faz com qu...