#6: EROS E CIVILIZAÇÃO (Modesto Carone)
Era tarde quando Marta abriu as pernas. Havia pouca luz no quarto, mas isso não impedia que as lâminas dos pequenos lábios rasgassem a obscuridade com reflexos intermitentes. Diante dos meus olhos as chispas moviam-se silenciosas, tecendo no ar uma trama de traços metálicos. Na espiral que ia da cama ao teto, os fios armavam afinal uma estrela pontuda. Com a face direita voltada para a projeção noturna, coroamento do espetáculo, Marta chegava à serenidade do dever cumprido. O estrailho é que apesar de tudo ela ainda chorasse. Para atenuar uma dor que parecia sincera, peguei a banana da fruteira e a ofereci à voracidade das lâminas. Sua comoção não se fez esperar: em poucos segundos nada mais restava na palma da minha mão. As lágrimas No entanto ainda vincavam a planície gelada. Foi então me ocorreu aparar as unhas no inquieto mecanismo. E verdade que nesse gesto havia mais interesse que solidariedade, pois niilito tempo eu não as cortava decentemente.
Devo admitir que o serviço foi perfeito, mas por inadvertência meu polegar recebeu um talho profundo na carne. Fantasia ou não, quando o sangue pingou no lençol, senti nos pelos do braço um sopro forte que vinha do buraco à minha frente — algo parecido com um riso de desabafo. Os olhos porém continuavam magoados, não sei se de ódio ou de simples melancolia. Por isso abri as portas de par em par e fui enfrentar a noite sem qualquer esperança de compensação simbólica.
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