#5: Vereda Tropical (Pedro Maia Soares, 1976)

Amo melancias.

Gosto de possuí-las ao fim da tarde, quando vem chegan do a penumbra, de pé, sobre a mesa da cozinha, no sofá onde é mais aconchegante, ou deitado no tapete da sala onde podemos rolar de um lado para o outro.

Prefiro as longas, escuras, rajadas, mas são difíceis de encontrar. Por isso, quase sempre tenho uma das redondinhas comigo. Faço um orifício pouco profundo, o suficiente apenas para remover a casca. Depois penetro-as, sentindo a carne vermelha se desmanchar, deixando escorrer um líquido fresco e doce. Com as mãos seguro o outro lado, acariciando o lugar do cabo. Bem lavadas e lustradas, elas são macias ao tato, as mãos escorregam pelo arredondado da forma. E eu pressiono mais para dentro, sinto as sementes me envolvendo e ouço o ruído da carne que se esfacela, Com as longas é possível possuí-las dos dois lados, sempre o mesmo resultado. Não encontro o primeiro furo, é preciso fazer tudo de novo, o prazer é total. Com as pequenas, em compensação, ao penetrar do lado oposto, o líquido escorre também pelo buraco anterior, de tal forma que posso senti-lo em meus dedos, úmido, frio, pegajoso.

Tentei melões: são pequenos demais, pouco carnudos e pálidos. Experimentei abóboras, mas machucaram-me de tão duras. Berinjelas, mamões, abacates, sempre a mesma insatisfação. Por isso volto às minhas queridas melancias, ao velho e sempre renovado prazer. Compro-as na feira e levo-as para casa debaixo do braço, dissimulando o desejo que cresce. Sinto-me meio obsceno com meu objeto amado assim exposto, em contato com minhas axilas. Mal posso conter a vontade de acariciá-la. Em casa, dou-lhe um banho bem cuidadoso, esfrego um pouco de talco, encosto meu rosto em sua pele macia e, quando consigo conter o desejo, fico à espera do grande momento, ao fim da tarde.

As vezes, deixo-me levar por perversões. Depois de fazer o orifício, não a possuo logo: mordo sua carne rubra, chupo-lhe o caldo, introduzo minha língua em movimentos circulares e vou enchendo minha boca de saliva e semente, suco e bagaço. Fico com o rosto encharcado, perco a cabeça. Atabalhoadamente monto sobre ela, forço suas entranhas e estremeço de prazer. Depois, deitado sobre o tapete, descanso um pouco. Mas sub-repticiamente escavo a outra parte de seu corpo com meus dedos e fico remexendo lá dentro. E meu tônico revigorante: em breve estou pronto para amá-la de novo.

Mais tarde, extenuado e nu, dou quinze facadas em meu amor, retalho-a em pedaços e como-a, sofregamente, sentindo a baba escorrer ombros abaixo.


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Pedro Maia Soares nasceu em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, em 1945. Formou-se em Filosofia pela UFRGS. Foi jornalista, redator, editor e tradutor. E autor do livro infantil  ABC do ZOO (Companhia das Letrinhas, 1993). O conto Vereda tropical  foi premiado ni 1° Concurso de Contos Eróticos da Revista Status e deu origem a um dos episódios de Joaquim Pedro de Andrade para o filme Contos Eróticos, de 1977.




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