Mensagens

#18: A MULHER DO VIZINHO (Fernando Sabino, 1988)

   Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.            O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.            O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:            — O senhor pensa qu...

#17: A CARTEIRA (Machado de Assis, 1884)

Imagem
  ...De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo: — Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez. — É verdade, concordou Honório envergonhado. Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos emprésti...

#16:O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS (Mia Couto, 2003)

Imagem
  De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei? (Verso do menino que fazia versos ) — Ele escreve versos! Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha. — Há antecedentes na família? — Desculpe doutor? O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias: — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol. Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros ...

#15: QUARTO MINGUANTE (Andrea Del Fuego, 2007)

Imagem
Salão encerado, suor entre os seios. Eu queria apanhar. Apanhar até a pele esfolar, provoquei. Joguei a sandália num grupo que dançava em frente, atingiu justo ele. Vestido de pirata, eu furaria seus olhos para que cego ele me odiasse. Acordei, levantei, lavei o rosto. No palco evoluía uma banda antiga, encantei o senhor de chapéu vermelho, ele me quis. Beijei o velho na coxia, devagarinho. Ele me capinava o rosto com a língua áspera, a saliva umedecia a saboneteira. Acordei, bebi da água que deixo ao lado da cama. Passei para uma sala oval com portas que davam para outras salas ovais, fui penetrando a ambiência. Alguém me chama, um bispo no quarto escuro, sentado no chão. Entrei. Fui rasgada com talheres de ferro, a carne se soltou dos ossos com nenhum esforço, ele me desfiava pelos punhos. Roeu a coxinha de minha mão e ofereceu o resto ao Saturno numa pia batismal. Acordei. O homem vestido de pirata me tirou para dançar. Não queria mais furar seu olho, desse ele um vacilo e eu o mont...

#14: AÍ PELAS TRÊS DA TARDE (Raduan Nassar, 1972)

Imagem
 Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis esventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você  milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e  perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê  um largo "ciao" ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida) e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se tala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo ...

#13: 15 Cenas de descobrimento de Brasis (Fernando Bonassi, 1999)

Imagem
Cena 1 HISTÓRIA DAS IDÉIAS   Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa. Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito. Então surgiram os números racionais e a História, organizando os eventos sem sentido. A fome desde sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança.   Cena 2 TURISMO ECOLÓGICO   Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar a Ave Maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negócio, não fosse o fato das índias começarem a deitar-se com os hóspedes. Nada faz com qu...

#12: GAETANINHO (Alcântara Machado, 1927)

Imagem
 - Xi, Gaetaninho, como é bom!  Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.  - Eh! Gaetaninho! Vem prá dentro.  Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.  - Subito!  Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.  Êta salame de mestre!  Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.  O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da tia Peronetta que se mudava...